Existem alguns conceitos que acredito que se todos soubessem a sociedade evoluiria de maneira mais suave e célere. São conceitos que ajudam em análises e tomada de decisões, e que podem ser usados por quem os conhecem para manipular aqueles que não os conhecem. Também podem evitar erros, falhas e limitar a ignorância. Vamos a eles.
• Navalha de Occam - se refere a uma ideia de que quando múltiplas possibilidades são analisadas, na grande maioria das vezes a mais simples é a verdadeira. Probabilisticamente, é mais certeiro que algo terá uma explicação com menos variáveis do que uma explicação mais complexa. Vou dar um exemplo. Digamos que uma pessoa famosa morra de ataque cardíaco. Mas teorias da conspiração podem surgir, dizendo que foi assasinada ou está viva e estão encobrindo. A explicação que com quase 100% de certeza é a verdadeira é de que ela morreu de ataque cardíaco mesmo. Por quê? Por que as outras explicações são mais complicadas, requerem variáveis extras, muitas outras pessoas estarem mentindo ou envolvidas. Existem graus de possibilidade. A explicação de que está viva é a menos provável, pois é a que envolve mais pessoas e é a mais complicada. Não que situações complicadas não possam existir, mas para crermos nelas é preciso de mais provas e evidências. Para não sermos iludidos ou enganados, devemos considerar qual explicação é a mais provável em qualquer situação, qual é a mais simples considerando os dados a disposição. E demandar mais provas para crermos em situações mais complexas do que para crermos nas mais simples e prováveis.
• Fonte - Todas as informações que obtemos vem de uma fonte. Precisamos considerar de onde algo está vindo e o que aquela fonte ganha ou tem a perder com aquilo. Um jornal ou grande rede de notícias não é considerado confiável atoa. Eles tem algo a ganhar por passar notícias relevantes e certeiras: dinheiro. Do mesmo modo, eles tem algo a perder, que é a reputação e consequentemente também dinheiro. Por isso redes sociais não são consideradas fontes confiáveis. Primeiramente que é mais difícil averiguar a fonte e então verificar confiabilidade. Também fontes em redes sociais não sofrem quando a informação que passam é falsa, deliberadamente ou não, a grana é repassada por engajamento. Outra fonte a ser considerada é a da grana em si. Se o objetivo final é esse, e a grana vem dos anunciantes, então as notícias que terão prioridade serão aquelas que os anunciantes se sentirem confortáveis de patrocinar. Se um jornal noticiar algo que vá contra, pode perder anunciantes e portanto verba. Sendo assim, os meios de comunicação grandes serão sempre veículos usados por aqueles que tem dinheiro para influenciar a população. É mais um modo no qual aqueles que não tem poder econômico ficam limitados, não podendo influenciar o que se torna de conhecimento geral. Redes sociais sofrem do mesmo problema, pois quem tem mais dinheiro para investir em engajamento poderá influenciar mais pessoas, só que sem sofrer consequências de dados errôneos. É aí que entra o conceito de jornalismo independente, que seria financiado e patrocinado por outras fontes que não grandes empreendedores. Pode ser difícil encontrar estes, mas o The Intercept Brasil é um exemplo, sobrevivendo principalmente base de doações e assinaturas. Outros assim são a Pública e o Nexo.
Mas não é só de notícias que vive essa influência. Tudo que vai no imaginário popular pode ser influenciado. O conteúdo de novelas e músicas, por exemplo. "Agro é tec, agro é pop", não é só uma propaganda de televisão. O setor agropecuário no Brasil se usa de seus enormes rendimentos para patrocinar novelas rurais e música sertaneja para se tornar parte da cultura. Você pode de perguntar por quê e a resposta novamente está na grana. Existe uma coisa chamada lobby que é como pessoas e entidades endinheiradas manipulam a política. O lobby agropecuário, por exemplo, busca passar leis que diminuam controle ambiental e taxas para poderem então ganhar mais dinheiro, independentemente das consequências. Então se tornar parte da cultura faz com que as pessoas votem em políticos que favorecem o agro e então estes políticos votam favoráveis a leis que ajudam o agro a ganhar mais dinheiro.
• Viéses Cognitivos também são conceitos importantíssimos de de conhecer.
- Como por exemplo o viés de confirmação, que é o fato de que tendemos a dar mais valor a evidências que confirmam aquilo em que acreditamos do que a evidencias que vão contra. Sabendo disso, precisamos tomar cuidado e tentar levar em conta todas as evidências, não apenas aquelas que nos agradam, e tentar ser equilibrados.
- Outro viés cognitivo é o do Sobrevivente, que consiste em perceber ou considerar apenas os elementos que passaram por um processo, ignorando os que 'falharam' nele. Como exemplo podemos ter pegar várias figuras que largaram a faculdade e mesmo assim se tornaram bilionários bem sucedidos e considerar que largar a universidade é o segredo do sucesso. Esta visão, por exemplo, peca por ignorar os caos de fracasso, de pessoas que não tiveram o mesmo sucesso na vida ao abandonarem a faculdade. Este é o viés, dar peso maior ou considerar apenas parte das informações.
- Temos também o viés de frequência, que consiste em passar a notar algo mais depois que aquilo se torna relevante para a pessoa. Como comprar um carro de uma certa cor, passar a notar mais os carros que também tem aquela cor e possivelmente julgar que mais pessoas estão comprando carros daquela cor do que antes, quando é apenas nossa percepção que sofreu reajuste.
- Outro é o do Custo Gasto. Que é o fato de tentarmos justificar as escolhas que fizemos, e que se intensifica quanto mais as fizermos. Um exemplo se faz necessário. Digamos que compremos um produto caro e que não nos satisfaça. Tentaremos encontrar alguma qualidade naquilo para justificar o preço que pagamos e nos sentirmos melhor de tê-lo feito. Digamos que justificamos que usamos por pouco tempo e compramos o mesmo produto outra vez. Continuamos insatisfeitos e então justificamos que era o produto errado e compramos outro parecido da mesma marca. Por que? Por que já gastamos tanto que precisamos que aquele gasto que fizemos faça sentido, já gastamos tanto que não queremos desistir. Não queremos que aquele investimento tenha sido em vão. Assim fazemos com várias escolhas. Por exemplo um político no qual votamos. E talvez fizemos campanha, talvez discutimos e argumentamos a favor dele, quanto mais fazemos isso, mais sentimos a necessidade de justificar aquilo por que já investimos tanto naquilo. E então o outro viés também se torna mais destacado, damos mais valor a evidências favoráveis a nossa escolha do que evidências contrárias. Ou talvez até não busquemos conhecer evidências contrárias, ou mesmo nos esforcemos para evitar elas. Tendo tudo isto em mente é preciso avaliar a nós mesmos e vigiarmos a nós mesmos constantemente para nos assegurarmos de que não estamos caindo nesta armadilha.
- O Efeito Goomba, que se refere ao fato de que não existem grupos homogêneos de pessoas. Quando você vê uma pessoa que faz parte de um grupo enunciando alguma opinião, não é o grupo que está proferindo aquela opinião, mas sim aquela pessoa individual. Há que se tomar o cuidado de ter isto em mente para não julgar grupos inteiros pela opinião de uma pessoa.
- A internet e a ascenção dos algoritmos nas redes sociais tende a torná-las Câmaras de Eco. Antes páginas como a do Facebook tinham uma linha do tempo que exibia publicações dos seus amigos das mais recentes às mais antigas. Atualmente a linha do tempo não é de fato isso, exibindo publicações que não são apenas dos seus amigos e que além disso não necessariamente estão em ordem cronológica. Isto é feito para misturar as publicações de pessoas conhecidas com as patrocinadas por anunciantes para que a pessoa preste atenção igualmente a ambas. O algoritmo calcula o que aquela pessoa quer ver, o que significa que logo tudo o que aquela pessoa verá na sua linha do tempo serão publicações que concordam com ela. Isso gera uma impressão de que aquela opinião é muito mais comum do que é de verdade, pois a pessoa não está vendo as opiniões contrárias. Isso leva a radicalização, já que aquela pessoa pode acabar acreditando em teorias da conspiração para explicar evidências que desabonem as crenças dela. Por exemplo, se uma pessoa só vir em sua 'bolha' na internet pessoas que apoiem um determinado candidato político, pode desacreditar se aquele candidato perder uma votação e acreditar em uma extremamente improvável tramoia de falsificação de votos apenas por que a realidade desmente a crença falsa na qual a bolha fez ele acreditar. Esta pessoa está também incorrendo em um erro de dar maior valor a uma anedota, uma experiência pessoal, do que a dados estatísticos ou evidências científicas.
• O benefício da maioria nem sempre, ou pode-se dizer que nunca, é necessariamente preferível ao de uma minoria. Matar uma pessoa e doar os órgãos para múltiplas outras pessoas seria benéfico para mais pessoas do que não matar essa pessoa, mas ninguém argumentaria fazer isso. Outras coisas tem que ser levadas em consideração em adição a um "benefício da maioria". O bem de uma maioria de pessoas ser mais importante do que o bem de uma minoria não é uma verdade absoluta, na verdade é uma falácia usada para justificar barbáries injustificáveis.
• Falácias, que são raciocínio supostamente lógicos, mas com falhas graves que os tornam falsos. Existem vários tipos, como:
- Falácia da Ladeira Escorregadia: dizer que algo levaria a outro algo sem evidência ou justificativa que comprove. Como por exemplo dizer que "se liberar o aborto em alguns casos, logo estaremos liberando a torto e a direito". Não existe nenhuma justificativa lógica para uma afirmativa, evidências não são necessárias, apenas uma percepção de credibilidade.
- Falácia do Espantalho: Consiste em criar um argumento parecido com o que outra pessoa fez e argumentar contra ele como se o estivesse fazendo contra o argumento original, dizendo-se que desbancou o argumento original, quando apenas o fez contra a cópia mal feita. Como exemplo vou usar do argumento de que "estão dizendo que ninguém nasce homem, nem mulher" para depois argumentar contra esse argumento que, na verdade, os defensores das pessoas trans nunca usaram e nunca usariam. O argumento correto seria que algumas pessoas nascem com o sexo psicológico diferindo do sexo biológico, mas é mais fácil argumentar contra a versão simples e falha de um argumento do que contra o argumento em si. Assegure-se, quando ler uma argumentação contrária a algo, de verificar o argumento original e comparar para verificar se está sendo fielmente representado pela parte que procura argumentar contra ele.
- Falácia da Autoridade: Consiste em considerar uma afirmação correta baseando-se apenas na autoridade ou suposta autoridade daquele que a profere. Como por exemplo considerar uma informação médica correta independente de falhas lógicas apenas por estar vindo de um médico.
Autoridades também podem cometer erros, e argumentações tem que ser avaliadas por sua consistência interna e para com as evidências mais do que por uma alegada expertise do seu perpetrador. Do mesmo modo não se deve descartar um argumento apenas com base em uma suposta falta de autoridade de quem o faz.
- Pulando para Conclusões é talvez o tipo de falácia mais famoso. Seria dizer que se A é igual a C e B é igual a C, então A é igual a C. Um exemplo simples é "O cachorro é um animal que late. O gato é um animal. Logo, o gato late". É preciso averiguar se a argumentação que fundamenta o que está sendo dito é sólida e não apenas parece factível.
- Ad Hominem é a falácia de ataque pessoal, que ataca quem está fazendo o argumento ao invés do argumento em si, o que obviamente não invalida o argumento já que nem sequer lhe diz respeito. Um exemplo é dizer que alguém que já teve dívidas não pode falar sobre política econômica.
- O Falso Dilema é uma falácia em que se pretende que há apenas duas opções possíveis, outras nem sequer são mencionadas. Um exemplo é: "Ou você apoia totalmente este modelo de escola, ou você odeia a educação das nossas crianças."
- Apelo à Ignorância é dizer que uma afirmação é verdadeira apenas por que não foi provada falsa (ou vice-versa). Um exemplo é dizer que ninguém conseguiu provar que fantasmas não existem, portanto eles são reais. O ônus de provar que algo é real/existe/é verdadeiro está em quem está fazendo aquela afirmação. Do contrário quaisquer afirmação que se fizesse seriam consideradas verdadeiras até que se provasse o contrário.
- Apelo à Emoção é ainda uma outra falácia, que usa de um apelo emocional ao invés de um argumento racional. Como por exemplo: "Por favor, vote neste projeto de lei de impostos. Se não aprovar, centenas de gatinhos fofos em abrigos sofrerão sem comida."
- Na fálácia do Falso Escocês, para proteger uma generalização de um contra-exemplo, redefini-se arbitrariamente o termo central para excluir o caso problemático.
Exemplo:
Pessoa A: "Nenhum cidadão da cidade X roubaria uma carteira."
Pessoa B: "Mas o João é da cidade X e foi pego roubando uma carteira ontem!"
Pessoa A: "Ah, mas é porque o verdadeiro cidadão da cidade X jamais faria isso."
- No complicadamente nomeado Post Hoc Ergo Propter Hoc, o argumentista alega que porque o evento A aconteceu antes do evento B, o evento A foi a causa do evento B, confundindo correlação com causalidade. Exemplo: "Usei minha pulseira da sorte ontem antes da prova e tirei dez. A pulseira é a única razão pela qual tirei nota máxima."
Um outro fator que as pessoas deveriam ter sempre em mente é o Método Científico, que nos deu invenções notáveis como, por exemplo, o computador ou celular que você está usando para ler este artigo. Nele, cientistas observam um fenômeno e criam uma hipótese a ser testada. Essa hipótese tem resultados previstos possíveis e é feita com medidas de controle para garantir que apenas aquilo que está sendo testado interfira nos resultados. Após o teste e resultados, outros testes são feitos modificando os parâmetros para excluir outras possibilidades que possam ter causado o resultado obtido. Depois disso, outros cientistas fazem seus próprios testes e analisam a consistência dos resultados. Os resultados precisam ser repetíveis para garantir que não foi apenas um caso isolado causado por outros fatores que não os aferidos. Estatística também é levada em consideração, pois é preciso levar em conta a probabilidade daquele resultado e garantir que não foi apenas "sorte", ou seja, um caso isolado. Por fim, resultados científicos sempre podem ser contestados por novos testes e novos resultados, eles não são considerados absolutos. O método científico não precisa ser aplicado apenas a ciência, mas os passos podem ser usados e seguidos também em situações do dia a dia.
Existem também outras técnicas de manipulação aplicadas sobre grupos de pessoas para fazê-las, inclusive, ir contra seus próprios interesses. Como o pânico moral, uma espécie de apelo à emoção, que tenta suprimir a racionalidade das pessoas ao incutir medo e urgência que fazem deliberações práticas parecerem menos importantes perante uma ameaça iminente. É o caso por exemplo da 'ameaça vermelha' que unia até mesmo trabalhadores contra seus próprios direitos durante a Guerra Fria, pois lutar por direitos trabalhistas era visto como ser comunista e ser comunista era motivo de pânico.